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Autora: Isabel Lourenço
- Quando as características do contexto e dos coachees se alteram…
Um processo porque se desenvolve numa sequência de fases em que o coachee vai descobrindo e aplicando potencialidades, até ao momento, adormecidas dentro de si.
Uma arte porque uma gestão criativa das ferramentas e das técnicas de coaching pode enriquecer extraordinariamente o processo, em qualquer fase. Como em qualquer arte não existem parâmetros fixos ou receitas previamente definidas para que cada um se possa tornar num melhor artista. Algumas técnicas funcionam nuns contextos e não funcionam noutros. Algumas funcionam com determinadas pessoas e não funcionam com outras. Esta é, aliás, a questão central desta reflexão: Como funcionará o coaching em presença de uma alteração radical das condições sócio-económicas dos coachees?
Uma paixão porque, um procedimento de coaching, uma vez aprendido e utilizado, não é mais possível ignorá-lo. Sobretudo depois de sentir o efeito no outro ou em si próprio.
Já não basta ser líder, professor, amigo, mãe ou pai… é também preciso ser coach.
Muitas empresas estão todos os dias a procurar implementar, não apenas procedimentos, mas também uma cultura de coaching, nas mentes e nos corações dos seus líderes. E a tendência tende a generalizar-se.
No entanto, ainda muitas pessoas não sabem o que é o coaching nem nunca ouviram falar…Outras há que ouviram mas desconhecem o significado… E outras, ainda, confundem o coaching com outras metodologias de intervenção. Há, ainda, um longo caminho a percorrer.
Aplicado em contexto organizacional o coaching tem alcançado resultados surpreendentes, para coaches e coachees. Um factor crítico de sucesso importante é que seja desenvolvido por profissionais experientes, certificados por entidades credíveis e obrigados a cumprir códigos éticos e de conduta, em conformidade com os padrões mais elevados de exigência e rigor.
É, actualmente consensual, que um coaching de qualidade é, um poderoso processo de auto-desenvolvimento pessoal e profissional. Não se conhece outro com potencial equivalente. Os resultados que têm vindo a ser alcançados através da prática do coaching – do bom coaching – em contexto organizacional, têm sido, na generalidade, classificados, por todos os intervenientes, como bons, muito bons ou mesmo excelentes.
No entanto, tudo se tem passado no mundo empresarial e/ou com coachees com elevado nível de instrução, muitas vezes executivos de grandes empresas, inseridas em áreas de actividade dinâmicas e exigentes, quase sempre com elevado poder económico, abertas à consultoria externa e receptivas à introdução de metodologias inovadoras, de que as telecomunicações ou a banca constituem apenas dois exemplos.
Contextos organizacionais exigentes e pessoas altamente escolarizadas pertencentes a um nível sócio-económico médio ou médio-alto, têm constituído, em regra, o cenário e a “matéria – prima” deste coaching.
E se alterarmos as características do contexto e dos coachees? E se aplicarmos o coaching em contextos mais desfavorecidos e a pessoas com dificuldades económicas e sociais?
Parece, então, pertinente procurar perceber se, num contexto diferente e com coachees com outras características, o coaching poderá alcançar os mesmos resultados ou resultados idênticos. Muitas perguntas surgem nesta fase da reflexão:
- Se o contexto for desfavorável como se desenrolará o processo de coaching? O que funcionará? Por exemplo, se aplicado num bairro social dos arredores de Lisboa?
- Se os coachees estiverem a viver uma realidade repleta de carências de vária ordem, qual será a viabilidade da aplicação do coaching?
- Se os coachees forem pessoas da classe sócio-económica baixa ou média-baixa, desempregados a receber subsídios do estado, como irão aderir? Qual o seu grau de receptividade?
- Será que o mesmo coaching, num contexto adverso, irá originar os mesmos resultados?
- Terá o mesmo nível de impacto nos coachees?
- Quais poderão ser os efeitos do coaching em populações com níveis de auto-estima e de auto-confiança reduzidos, com menos recursos internos para lidarem com a vida, muito embora, com uma forte necessidade intrínseca, consciente ou não, de saírem dessa situação, de mudarem o rumo da sua vida e de desenvolverem uma dinâmica pessoal, mobilizadora e estimulante?
Quando penso nesta questão lembro-me muitas vezes desta pequena história:
Duas crianças estavam a patinar num lago congelado da Alemanha. Era uma tarde nublada e fria, e as crianças brincavam despreocupadas. De repente, o gelo quebrou-se e uma delas caiu e ficou presa na fenda que se formou. A outra, ao ver o seu amiguinho preso e a congelar, tirou um dos patins e começou a golpear o gelo com todas as suas forças, conseguindo por fim quebrá-lo e libertar o amigo. Quando os bombeiros chegaram e viram o que havia acontecido perguntaram ao menino:"Como conseguiste fazer isso? É impossível que tenhas conseguido quebrar o gelo, sendo tão pequeno e com mãos tão frágeis!" Nesse instante, o génio Albert Einstein que passava pelo local, comentou:"Eu sei como é que ele conseguiu."Todos perguntaram: "Pode dizer-nos como?" "É simples", respondeu Einstein, "Não havia ninguém ao seu redor, para lhe dizer que não seria capaz." (Autor desconhecido) |
Não sei qual é o autor mas tenho uma certeza: crianças ou adultos, a patinar ou a fazer qualquer outra coisa, em qualquer dia da semana, do mês ou do ano e em qualquer parte do mundo, perante uma qualquer advertência, irão, com grande probabilidade, vacilar no momento crítico, nem que seja apenas por um segundo… E isso pode fazer toda a diferença…
Sei ainda outra coisa: Para que tal aconteça nem é preciso dizer nada. Basta um olhar de reprovação, de desconfiança ou de dúvida, num momento crucial, para ter o mesmo efeito ou um outro, ainda mais devastador.
Quanto mais próxima e mais importante for a pessoa que lhe dirige esse olhar e mais forte for o laço afectivo, mais negativo é o impacto que provoca e mais demolidor e devastador poderá ser o resultado.
Tenho fortes suspeitas, fundamentadas pela minha prática dos últimos vinte anos como psicóloga, que em ambientes socialmente mais difíceis e adversos, onde as dificuldades e carências estão mais presentes e as pessoas têm, em regra, baixas expectativas de si próprias, do seu futuro e dos que as rodeiam, é mais difícil acreditar. E tudo isso pode originar mais e mais insucessos e cada vez maiores adversidades, num ciclo vicioso que, a dada altura, não permite discernir onde começa e onde acaba o movimento que, na forma de uma espiral, vai mergulhando cada vez mais fundo.
Ou não…
Será que o coaching permite obter resultados positivos significativos e gerar mudanças efectivas na vida de pessoas com tantos problemas e tantas fragilidades? Em que medida? E qual o grau de adesão destas pessoas? Haverá algum espaço na vida delas para investirem em si próprias, com um mínimo de dedicação e empenho? E qual o grau de auto-disciplina que necessitam para cumprir? Qual a capacidade para desenvolverem proactivamente acções concretas, por pequenas que sejam? E de resiliência para continuarem? E de auto-confiança para começarem a acreditar?
Estas questões irão ser respondidas num estudo que está a decorrer e terminará no final da Primavera – Uma aplicação do coaching a um grupo de pessoas desempregadas, de um bairro social.
Quero muito descobrir se uma espiral, agora no sentido ascendente, pode ser gerada através do coaching, mesmo quando tudo, ou quase tudo, parece estar a desfavor e a fluir em sentido contrário. O que irei encontrar?
Irei dedicar uma parte da minha vida (e do meu tempo…) a esta “causa”, com o espírito apaixonado que sempre imprimo em tudo o que faço, contando, desde já, com dificuldades e obstáculos. Aprendi com uma pessoa grande, muito grande, que gostaria de ter conhecido na sua época, e de conhecer agora muito, muito melhor, frequentemente, me sussurra baixinho:
As pedras do meu caminho… Guardo-as todas!.. Quem sabe ainda um dia construirei um castelo… Nemo Nox |
E como o caminho faz-se caminhando, tal como uma criança aprende a andar andando e caindo e levantando-se e voltando a cair e a levantar-se, em percursos tantas vezes sinuosos e empedrados, cá seguirei caminhando e sorrindo, desviando-me dos buracos, apanhando as pedras e juntando-as num saco, grande e resistente, que construí para o efeito. E se, no final, tiver material para um castelo bem grande, tanto melhor, porque terá espaço para acolher muito mais pessoas…
Se, com este estudo, obtiver os resultados positivos que espero, sei que encontrarei uma forma de disseminar mais, e mais rapidamente, o coaching para que muitos mais sejam capazes de acreditar e tenham vontade de sorrir… E essa será a minha missão porque acredito MESMO que os únicos limites da nossa vida são aqueles que nós estabelecemos.
“ A aprendizagem não ocorre quando se têm as respostas, mas quando se convive com as perguntas”. Max Dupree |
E, por fim, e porque o tema é coaching será que me permite que lhe lance algumas questões?
- Em que é que realmente acredita?
- Quais são as suas principais crenças?
- Já se assegurou de que são positivas?
- Quais os seus objectivos para os próximos três meses? E para a próxima semana? E para hoje?
- O que o pode impedir de os alcançar?
- Como vai contornar os obstáculos?
- E como vai perceber que os atingiu?
- Como vai festejar? E com quem?
Ainda se lembra da tal história que falava de umas das pedras e do saco para as guardar?
E já construiu o saco onde poderá ir juntando as pedras com que um dia construirá o seu castelo?
Ou será que tem uma ideia ainda melhor?...
Se a quiser partilhar gostaria muito. Daqui lhe envio o convite!...
Fonte: Revista PESSOAL (online) 2011
e.mail: imapglourenco@gmail.com
Isabel Lourenço
Psicóloga e Coach
Membro do ICC –International Coaching Community - Nº: 3196
Membro do Grupo Português de Coaching / APG
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